Construção única, prazer intemporal
 
 
 

O complexo industrial

O complexo da Real Fábrica do Gelo foi considerado por inúmeros especialistas internacionais "como um caso único pela originalidade das suas estruturas e pelo razoável estado de conservação".
Divide-se em duas áreas distintas: uma destinada à produção do gelo e a outra, que dista para Sul cerca de 100 metros, destinada à sua reparação, armazenamento e conservação.
A área destinada à produção é, actualmente, constituída por dois poços (com cobertura recente) para captação da água; uma casa onde eram accionadas as noras e que servia de armazém; um tanque principal para recepção da água; e 44 tanques rasos onde era realizada a congelação da água.
Os tanques rasos foram construídos num desnível suave em três patamares, comunican­do entre si por pequenas aberturas de secção rectangular situadas a 10 cm do fundo, de modo a permitir a acumulação da água até esta altura. Os tanques estão separados entre si por passagens lageadas, permitindo o acesso fácil a todos eles. O seu enchimento demonstra uma notável capacidade inventiva. Em primeiro lugar procedia-se ao enchimento do tanque principal até ao nível marcado com argamassa cor-de-rosa (medida observável neste tanque e que correspondia à capacidade de água necessária para o enchi­mento dos tanques rasos), seguindo-se o escoamento da água para os referidos tanques.

A área destinada à preparação, armazenamento, conservação, preparação e embalamento do gelo, é constituída por um edifício com fachada de decoração sóbria (ao gosto do Séc. XVIII), dois silos para armazenamento e conservação do gelo e um outro para despacho do gelo já embalado.
O edifício dos silos possui duas portas de acesso. Sobre a porta principal existia uma placa em pedra gravada que registava a compra e a reedificação da fábrica pelo neveiro da casa real, Julião Pereira de Castro, a 31 de Janeiro de 1782. Na parte superior da fachada, num pequeno nicho, existiu uma imagem (provavelmente de Santo António das Neves).
O pavimento do piso térreo é constitu­ído por lages calcárias e apresenta inclinação para o centro de forma a permitir o escoamento da água proveniente do derretimento do gelo aquando da sua preparação em blocos. Possui, em intervalos regulares, pequenas covas de formato rectangular, sugerindo o encaixe dos pés de uma bancada onde os fragmentos de gelo seriam compactados de modo a formar blocos para posterior armazenamento e conservação nos silos. O edifício possuiu ainda um piso superior, comprovado pela existência de encaixes de vigas, cachorros e um arco em tijoleira, actualmente destruído.

Fotografia: Fachada do edifício dos silos
Henrique Ruas. IGESPAR

Fotografia: Vista exterior das traseiras do edifício dos silos
Henrique Ruas. IGESPAR

Fotografia: Interior do edifício dos silos
Henrique Ruas. IGESPAR

Os dois silos para armazenamento do gelo divergem significativamente entre si. O primeiro apresenta um formato cilíndrico, com 9,40 metros de profundidade por 7,20 metros de diâme­tro. O acesso ao seu interior era feito por duas portas, sendo a do lado Este uma porta dupla. O fundo é lageado tendo, em intervalos regulares de cerca de um metro, pedras calcárias com formato paralelipipédico com cerca de 30 cm de altura. Estas pedras serviriam para assentamento de um estrado de madeira sobre o qual seria colocado o gelo, de modo a evitar o contacto com a água que derretia e escorria para o fundo do poço.
A água era escoada para o exterior através de uma abertura triangular, obstruída a cerca de um metro por grande quantidade de peque­nas pedras que permitiam a infiltração da água mas impediam a circulação do ar no silo. O silo possui, ao nível do arranque da abóboda, uma "janela" que servia para escoamento do ar quente que se acumulava no seu interior durante os trabalhos.
O segundo silo tem um formato rectangular, com 4 metros de profundidade por 4 de largura e 6 de comprimento. O fundo é lajeado, como o primeiro, possuindo também as pedras de assentamento do estrado e a abertura para escoamento da água.
O terceiro silo tem um formato também rectangular e apresenta dimen­sões semelhantes ao anterior. Está construído exteriormente ao edifício e possui uma das portas a comunicar directamente com o exterior. Não possui fundo lajeado, ou blocos de pedra para assentamento do estrado, nem abertura para o escoamento da água. Este silo destinar-se-ia ao armazenamento dos blocos de gelo já processados e prontos a carregar no dorso dos animais de transporte. Apresenta na abóboda, escrito na argamassa de revestimento das tijoleiras, a data de 1856 (não se sabendo se será relativa à construção ou à reparação).
Todos os silos possuem abóbodas em tijoleira e ganchos de ferro sobre as portas, para suspensão de roldanas. Os silos rectangulares estão adossados ao silo principal, indiciando serem de uma construção posterior.
O forno de cal, situado a Oeste deste complexo, terá sido construído para fornecer a cal com que foram feitas as argamassas para a cons­trução do complexo, bem como para a caiação do interior dos silos, como medida de higiene.

 
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